quarta-feira, 11 de abril de 2012

Ode ao Individualismo

Imagine um mundo compartilhado. Imagine um mundo de convívio intenso. Um mundo onde sempre há alguém por perto. Onde a sua realidade não é só sua, é sempre de mais alguém. Pois bem. O mundo que imaginaste é o pesadelo dos individualistas.E veja só: ele é real.
Há uma constante necessidade de um “nós”, um apelo insuportável por dividir seu mundo com alguém. Para quem é individualista, isso é aterrorizante. E, sob outro ponto de vista, é deprimente. Para fins de entendimento, vamos chamar as pessoas que vivem nesse mundo, o criam e por ele sentem apreço de “coletivistas”, o extremo oposto dos individualistas. Se for feita uma análise mais profunda a um coletivista, chegar-se-á a identificação de uma estrutura psicológica abalada, (na maioria dos casos).
A linha de pensamento é a seguinte: quanto mais precisa-se da companhia de outros  e condiciona-se a esta companhia a felicidade, menos o indivíduo sente-se seguro em sua própria companhia e seguro de suas próprias ideias e convicções. Por certo pode haver indivíduos seguros demais, mais aí o abalo residirá no extremo narcisismo e necessidade de aprovação, que uma segunda análise revelará novamente a insegurança e a visão deturpada de mundo, antes mencionada.
A pessoa que possui autocompreensão, auto-aceitação e uma visão do outro como ser uno não será dependente desse convívio intenso que é imposto. A autocompreensão permite que o indivíduo entenda seus sentimentos e pensamentos, perdendo o temor e a apreensão que estes podem causar. Já a auto-aceitação funciona como complemento. Aquele que aceita todas as partes que o compõem, previamente compreendidas, não viverá em conflito interno. É importante que não se confunda autoaceitação com conformismo: este impede que se mude o que não é apreciado, aquela permite que se mude, mantém o espaço para mudança aberto, muito embora não obrigue à mudança.
Por último e talvez mais importante, a visão do outro como ser uno. Quando se pensa e percebe o outro como ser uno, único e independente, é eliminada a necessidade absurda de compartilhamento. Vendo a cada um como indivíduo, e não apenas como parte de uma sociedade da qual também se é membro,  a visão do universo único que compõe cada pessoa é facilitada, bem como o respeito a este universo.
A partir dessas premissas, pode-se chegar a um relacionamento interpessoal ideal: cada qual com a sua individualidade e o seu microcosmos  preservado, com pontos de contato estimulados, sem relações de dependência e criação de expectativas exageradas. Consequentemente, também sem condenações e decepções incontáveis.
Observe-se que não há nesse ponto de vista nenhuma negação da importância do convívio, ou da premissa de que “o homem é um ser social”. É exatamente o contrário: apenas o individualismo pode levar à convivência prazerosa e à relação social por excelência, recíproca, porque despe a relação social do caráter de dependência, e obrigatoriedade.
O individualismo é a desconstrução da alienação, do estranhamento daquilo que se é e faz, e daqueles com quem se escolhe conviver.  É o protesto ao meio de vida onde a única coisa tornada comum é também tornada alheia: o íntimo do ser humano. 
Faça-se dessas poucas linhas um manifesto pelo individualismo. Por um mundo onde se permita o silêncio e seja ofertada a possibilidade de não compartilhar. Por um mundo onde o individualista não seja condenado à viver todos os dias seu maior pesadelo para satisfazer a demência de uma sociedade em que a propriedade é privada e o sujeito é coletivo. 



PS.: Os conceitos de individualismo e coletivismo que usei NÃO se expandem à este coletivismo ou este individualismo. É só, só o que realmente está no texto, ou só no sentido em que foram usados.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

Tango


Danço eu e dança você
Quando me estende a tua mão
Quando me estreitas em um olhar

Danças tu e me chamas a bailar
Quando me esquivo
E destilo no riso a dor
De por tão pouco te adorar

Dançamos nós o tango das palavras
Num jogo de recuos e avanços

Pele
Cheiro
Força

Não mais recuo e me tens cativa.
Concedo-te a próxima dança.



terça-feira, 13 de março de 2012

Subversivo

Acima do verso,
subversão.
Sob o verso,
decifrei o que você
subentendia.
Nas entrelinhas eu li
o que você versava
subversão
O proibido que te encanta
nos versos que você canta
subversivamente.

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Ainda

Ainda respiro.
Entre cinzas e escombros
do que fomos um dia,

ainda respiro.
Inalo as memórias
da felicidade
que asfixiam como fumaça
do amor que ardeu em chamas
e se consumiu na indiferença.

Ainda respiro
porque ainda não lembro de esquecer.
Não sufoco às escondidas
porque me permito arder a céu aberto.

Ainda respiro.
Ainda inspiro saudade.
Ainda expiro poesia.
Ainda...

Transpiro você.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Amores artísticos

Quero amores que me façam respirar e transpirar arte. Quero amores que se retratem em pinturas, sintam em uma fotografia e se eternizem em uma poesia. Amores que me levem para passear sem sair do lugar, e que, ao caminharem ao meu lado, estejam presentes na mesma vibração.

Quero amores com nuances de desespero e com todos os tons de plenitude. Daqueles que não se esquecem e a alegria de tê-los vivido supera a tristeza do fim. Quero que cheguem calmos como a brisa e me transformem como um vendaval. Não quero amores que terminem amargos... Quero deixar um sorriso no teu rosto quando lembrares de mim e o gosto doce dos momentos incomparáveis.

Não espero que eu seja a primeira e a última, mas a única com quem você anseia estar naquele momento. Quero momentos, daqueles que valem toda uma vida. Quero a sensação de viajar o mundo quando segurar tua mão. Quero a sensação de viajar por todos os mundos em quinze minutos de conversa.

Quero amores de vertigem. Intensos do começo ao fim. Que sejam amores de uma estação, então. De uma primavera em Paris ou de um inverno em Amsterdã. Amores quentes como o verão tropical e reflexivos como o outono em Londres.

Quero amores alimentados de letras e café, música e pinturas. Quero ver imagens dignas de um Van Gogh, mas que eu não compartilharei com ninguém.

Quero amores de encanto de encanto e de deslumbramento. Inacreditáveis como um feitio e concretos como a madeira das árvores. Quero amores fluídos.

Quero o encanto das diferenças e a delícia de discordar. Quero a força de uma discussão encerrada num beijo. Quero a discussão que não repele, que cria.

Quero amores plurais. Amores muitos, amores múltiplos. Que sejam platônicos, não importa. Que podem ser concentrados num único olhar e num único abraço. Quero um, que seja muitos.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Vermelho irrestrito

A vida de apresenta rasa
e eu a desejo profunda.
Mergulhar em sentimento
E me abandonar

Pra te encontrar

O verde me envolve
E eu quero o vermelho
Da entrega total e
Do sentimento irrestrito.
O gosto forte do café
E o prazer de saborear a vida.

domingo, 13 de novembro de 2011

T(r)emor

O instante de uma respiração
A perturbação de um devaneio
Estremeço, suspiro.
A naturalidade me assusta
E eu temo mais a sensação
Que essa loucura me traz
Do que o desastre de sua realização.

Eu tenho medo de mim.