quarta-feira, 29 de agosto de 2012

Marte em agosto


Marte em agosto
Partes em agosto
Me fazes
em desgosto

Sonhos de crepúsculos lilases
De finais feitos em recomeço
Ciclos, pressupostos
O indecifrável no teu rosto
E o teu rosto na lembrança

Ilusões todas feitas como
Marte em agosto
E eu não vou admitir
O quanto eu gosto.  


sábado, 18 de agosto de 2012

Desencontrar


Enquanto teus olhos me procuram furtivos,
Eu me desencontro do meu sorriso
Procuro não pensar em ti
Mas meus olhos teimam em te reconhecer
Em cada sopro de dentes-de-leão
Eu insisto em te lembrar
Em cada vago perfume que pareça o teu

Preciso perder dentro de mim
Esse recanto onde te guardei
Preciso desencontrar tua memória
Pra encontrar paz.

Façamos um acordo, meu bem.
Tu me contas as coisas que te lembram de mim
E eu confesso as poucas que não me deixam lembrar de ti. 


terça-feira, 7 de agosto de 2012

Wonderland... Wonderwall


ou Outra Carta Que Eu Não Enviei


Me peguei pensando em você e sentindo uma dorzinha incômoda quando li um trecho daquela música que foi nossa sendo só, só minha. Acho que é porque sonhei com você. Sonhei que você me mandava uma daquelas tuas mensagens loucas e dramáticas no meio da madrugada, simplesmente sem motivo e depois de todo esse tempo. Dizendo que me amava e que um dia ainda nos pertenceríamos. Seríamos um do outro.
Sonhei com você, Chapeleiro Maluco. Com cogumelos do tamanho de assentos. É, essa foi inesquecível. Com sorvetes de Mario Bros.  Sonhei com mãos dadas enquanto dirigia e com carros antigos. Sonhei com você assim, meio Jack Kerouac. Jack Kerouac ouvindo Oasis, segurando em silêncio minha mão enquanto pensava em outra pessoa. O meu favorito de todos os canalhas. E espero que você tenha perdido o hábito de me ler e dizer que sou sempre muito óbvia, porque dessa vez é mesmo muito óbvio.
Eu ainda não desci de cima do muro e aqui é muito confortável. A vista é linda. Juro. A vista é muito linda. E você deveria experimentar. Esse texto nem é uma declaração de amor apaixonada e arrependida, mas é uma declaração de saudade da nossa amizade gauche, dos teus velhos de cartola e dos cachorros na pracinha. Eu nunca fui apaixonada por você, bem o sabes. Sabes também que nossa amizade dá saudade não só no verão. Mas esse texto é um lamento, por tudo que ficou pra trás, por todos os “se”, por todos os “talvez”, e por ter sonhado com você. 

“There are many things that I would like to say to you
But I don't know how”


terça-feira, 31 de julho de 2012

Telúrico e Feérico



A poesia nasce com a manhã
nasce com o cheiro da chuva
e às vezes nasce telúrica
brotando vivaz por entre a terra

Ou pode nascer do calor do sol
que incita ao  movimento
às vezes é nuvem 
e se insinua sutilmente

é também luz que se revela
entre os galhos da faia

como fada que voa e já foi

Mas sempre vive
me vive
me domina
preenche
me respira.

E o sopro da vida eu observo na pele
Enquanto te sinto respirar. 

segunda-feira, 23 de julho de 2012

In Comum


Vem. Vem comigo nessa experiência meio voyeur de observar essa criatura tão etérea e tão palpável. Não precisa se preocupar, ela não vai se importar. Vou te contar um segredo: ela gosta de se imaginar observada. Então, vem comigo e vamos observá-la enquanto pega o casaco pesado no final do expediente e se despede de todos com um sorriso cheio de amor pelo trabalho que faz.
Ela desce as escadas com os passos firmes de quem anda com a cabeça nas nuvens. Quando o ar frio toca a pele do rosto, ela respira fundo com o ar de satisfação de quem se enche com uma nova lufada de vida. Preciso te contar outro segredo sobre ela: andar no minuano gelado destas paragens do sul, embrulhada nos casacos que ela acha um charme, é uma das paixões que ela cultiva.
Ela caminha pelas ruas onde os carros e as pessoas parecem tão sofisticados e superiores e ri por dentro. Observe-a com cuidado enquanto ela cruza a praça, murmurando com um meio sorriso no rosto. Esse meio sorriso é teu, meu amigo. Esse meio sorriso é pra ti, pela tua lembrança. Tu, que nem ao menos tem ideia da dádiva que recebeste quando ela te dedicou a maciez daqueles pensamentos e daqueles lábios.
Agora ela já está passando em frente à pequena igreja, pensando só Deus sabe (sabe?) em quê. Talvez ainda em ti. Em quais palavras dizer pra te capturar. Ao passar pelo velho hotel, que talvez um dia fora grande, ela deixa que as recordações do passado deem àquele olhar um brilho diferente. Tu já pudeste ver esse brilho, quando deliberadamente tocou no nome dele. É um brilho misto de dor, saudade e felicidade, tudo devidamente cicatrizado. E o tumulto do horário em que todos voltam pra casa faz com que ela prolongue a parada em frente a esse palco de memórias.
Mas... Ela segue, e não podemos perdê-la de vista. Olhe para seus pés e seu sorriso discreto enquanto atravessa os trilhos do trem sob a fraca iluminação das luzes que ficaram pra trás. O vazio do lugar que ela passa agora contrasta nitidamente com a multiplicidade que ela carrega dentro de si. Nada lá fora... tudo acontece dentro dela.
Perceba, companheiro, que na próxima esquina os ébrios se reúnem pra encher a cara e esquecer que vivem. Nenhum deles a incomoda. Porque ela não é bonita. Ela é poética. E a beleza do que é lírico não foi feita para todos os olhares. Tu vês? Consegue sentir o poema que flui naquelas veias? E te pergunto, meu caro, como tu consegues ser indiferente, quando tu também sabes que és o “tu”, o “ele”, o alguém em cada poema dela?
Nesse momento ela vive um pequeno êxtase. Estamos, eu, tu e ela, na parte alta da cidade, de onde se descortina uma vista privilegiada. Ela adora ver as luzes da cidade enquanto desce em direção à ela. Adora brincar mentalmente com as metáforas que isso pode gerar. Ela gostaria que todos percebessem que às vezes descer pode significar iluminação. Ou que não basta ver as luzes e continuar distante delas. E porque ela sabe disso, segue sem medo na direção das luzes.
Passa por casas muito ricas... Mas agora vou te contar mais um segredo sobre ela. Enquanto isso acontece, ela pensa numa casa feita de sonhos entre muitas árvores, com a tinta descascando e fumaça na chaminé. O abandono quase a convida.
Nessa descida para o centro das luzes, passa pela pequena loja onde os olhos de um marido que não é seu a observam disfarçadamente. Ela sabe. E talvez até goste, embora não confessará jamais. O que ela te diz sem medo é que esses olhares não fazem a menor diferença quando os devaneios dela são povoados pelos teus olhares, que ofertas a outrem.
Vês, amigo, ali naquela esquina? Eu sei. Agora não há nada. Mas houve. Casa, família, vida. E depois houve o fogo. Ela não saberia te dizer se a agrada mais imaginar a doce rotina de um lar que já não existe ou a imagem sedutora das chamas. Estamos quase chegando ao destino final dessa nossa curta viagem. Enquanto alguns poucos automóveis transitam pela rua quase esquecida, ela quase nada vê. Porque se deixa seduzir pela neblina ao longe e pelo movimento dos cachos de seu próprio cabelo.
Ela atende com indignação uma ligação, e você pode ouvir sua impaciência quando lhe cobram dez minutos de atraso. Amor e preocupação? Ela vai chamar de falta de liberdade, tu bem o sabes. Está na esquina do conforto doméstico e já começa a sentir a cobrança. Mas, por enquanto, ainda tem o ar gélido do inverno do sul pra acariciar suavemente o rosto.
Abre o portão alto, pensado para dar aquela fictícia sensação de segurança, e atravessa com passos leves sobre o gramado, como quem anda sobre fadas. Abre a porta e tu podes ouvir daqui o cumprimento alegre de quem retorna à casa.
Aqui, meu caro, nós a deixaremos. Porque já fomos longe na nossa viagem voyeur mundo afora e coração a dentro. Mas, quero te contar um último segredo. Que tu já sabes. Ela está em casa... Mas te dirias num sorriso agridoce: “meu lar é onde o vento sopra”. 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Chama(n)do


Venha.
Não olhe a hora.
Olhe em meus olhos e seja meu mundo.
Movimente meu universo com o teu sorriso,
e pare meu coração.       
Suspenda minha respiração
e eleva esse sentimento.
Leva, leva contigo essa recordação.
Me leva
Me deixa
Ser eu
Tira a poesia das minhas palavras
E deposita nos meus lábios com um beijo.
Tira meu alimento
Me dá vida longe da tinta e papel
Leva esse lamento.
Vem,
e me descortina ao vento.
Vem.
Não demora.




28/01/2012

terça-feira, 17 de julho de 2012

Um parágrafo sobre calor no inverno sulista

Você viu em meus olhos o desamparo e eu vi em teus olhos a preocupação. Não procuro e nem preciso entender porque teus braços me envolveram, mas me fizeram bem. Ouvir tua voz serena murmurando palavras doces pra me acalmar, enquanto molhava teu peito com as lágrimas confusas que meus olhos insistiam em derramar. Adorei o jeito que o mundo parou enquanto eu sentia tua mão acariciar meus cabelos e as minhas queriam, mas sem coragem, se emaranhar pelos fios grisalhos do teu. Ao invés disso, pararam desajeitadas ao redor da tua cintura. Cada segundo repousando no abrigo do teu calor aquecia minha alma. Pude sentir tua força que me oferecia aconchego e segurança. Pude ouvir teu coração batendo e isso me desconcertou. Quis acelerar aquele pulsar e te desconcertar tanto quanto você me desconstrói. Quis saber se teus olhos se fechavam como os meus, ou ao menos se perdiam ao longe. Quis saber se era banal pra você. Meus óculos embaçados ao final de tudo, teu riso que a barba torna misterioso e tuas piadas, me deram a sensação de estar no lugar certo. Foi só um abraço (foi, cavalheiro?), eu sei. Muito exclusivo, preocupado e carinhoso. Mas só um abraço. E se foi, eu não sei por que não pode ser mais. Eu não sei por que eu quero mais.