segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sou teu fetiche


Eu sou os teus olhares de esguelha. Sou o aperto no teu peito quando ouves a letra da música e o vulcão no teu sangue quando observas meu corpo mover-se.

Sou os pensamentos que não te deixam dormir tranquilo. Sou a culpa quando beijas tua mulher. Sou mácula e sou glória. Sou a voz sussurrada e as palavras que só os teus olhos dizem.

Sou o sopro de juventude e o torpor de se permitir não pensar. Sou o remorso e o tremor. O estremecimento e o nervosismo. A avidez pelo ácido dos meus beijos e as reticências infinitas entre cada libertação.

Sou aquilo que vivia só nos teus pensamentos obscuros. Sou a sombra iluminada dos teus lábios na minha pele. Sou a realidade que grita teu nome em meio ao emaranhado dos lençóis.

Eu sou o proibido que nenhuma sanção te impediria de adorar. Eu sou cada reação química do teu cérebro que fecha as  cortinas do mundo e te cobre de prazer.

Eu sou exatamente isso. Exatamente o que teu corpo deseja e tua mente condena. Exatamente a tentação em que tu queres cair. A fuga perfeita, que silencia no dia seguinte mas corta o silêncio do agora em cada gemido.

Eu sou teu fetiche. Sou toda tua fantasia. Vem e cai. A única maneira de acabar com uma tentação é cedendo a ela. Vem e mata tua sede na minha saliva. Faz do meu corpo a sede do teu prazer.  Acende teu desejo e deixa nossos corpos ascender. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Pela cor dos meus olhos

O castanho te trouxe prenúncios de tempestade. O verde passageiro e limítrofe, em um relâmpago, te entregou o êxtase. O mel que se derrama tem a ver com a doçura de estar feliz. 

Vês... Oblíquos olhos de cigana, que nada te sabem dissimular. 

Ninguém desvendou antes a delação dos meus olhos e isso me diz tudo que eu preciso saber sobre os teus olhos. Ninguém me deixou mais temerosa de voltar a ver no espelho as nuances que meus olhos adquirem na raiva e na dor. Eu espero, num arroubo de ousadia para quem aprendeu a nada esperar e deixar-se surpreender, que você jamais tenha acesso a essas nuances. 


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Carta a um poeta

Se você estivesse aqui, te convidaria para um café. Naquela rede capitalista, onde nós, esquerda convicta, encontramos um espresso excelente e um refúgio magnífico. Não é contrassenso. Contrassenso é saber que a poetisa em mim ainda te acha inspirador. Contrassenso é dialogar contigo sentada frente à folha em branco.
Eu gostaria de te convidar para um café pra te perguntar, poeta, se essa solidão é crônica. Te perguntar se ela nasce com a gente, impregnada nos ossos, no sangue nos genes, ou se em algum momento que todos desconhecem, a gente a adquire, no cheiro da terra ou numa brisa que sopra vinda de algum lugar.
É que eu percebi que mesmo quando minha gargalhada nada discreta enche a sala e os ouvidos dos meus amigos, mesmo quando os sons que enchem o ambiente são gemidos e mesmo quando me aninho em braços queridos, há uma parte de nós que ninguém toca. Tomo a liberdade de dizer “nós”, poeta, por um lampejo de clarividência que me faz ver nos teus olhos o mesmo que me encara quando paro em frente ao espelho. Essa parte fica reservada para a poesia. A poesia que somos e aquela que escrevemos.
Estive lendo meu favorito, meu delicioso Gabo. Estive tomando café e me embriagando da sétima arte (a propósito, um filme excelente, deverias vê-lo). Estive me identificando com o clã solitário dos Buendía e perguntando às paredes se é genético, crônico ou agudo. Se a solidão é mal de quem nasce assim, com a poesia intrincada na pele, ou se alguns poetas não a experimentam jamais.
Pobres deles, dos que nunca experimentam. Ou pobre de nós, dos que nunca a abandonam? Pobre da solidão, creio eu. Ela escolhe umas almas muito peculiares para montar acampamento.

Encerro esse texto-carta-ensaio assim, sem final, porque também eu permaneço sem respostas.

Escreva-me.

Eu ainda escrevo para ti. Eu ainda escrevo você.


Te escrevo. 




segunda-feira, 12 de maio de 2014

Sacra escritura profana

Você me escreve
Eu te declamo
Lá fora, a neve
Aqui dentro, o profano

A carne faz-se verbo
Conjuntamente conjugamo-nos
O verbo faz-se poesia
Escrita a sangue
Dentro das nossas veias


segunda-feira, 28 de abril de 2014

Amor depois

        Não existe lugar melhor para se escrever do que um café, numa fria manhã de segunda-feira, sentindo nos lábios o gosto do espresso e ouvindo tango. O frio e o espresso estimulam a criatividade, o café empresta um pouco do seu glamour às minhas palavras. E o tango? Ah, o tango é a intensidade em forma de som.
“O título é sobre amor e ela está falando sobre frio e café?” Sim, porque no meu texto, como na vida, só se percebe que é sobre amor depois.
Como diria Borges, “se o espaço é infinito, estamos em qualquer ponto do espaço. Se o tempo é infinito, estamos em qualquer ponto do tempo.” O tempo e o espaço do amor nunca são os mesmos. O ser-aí do apaixonado difere do ser-aí de qualquer humano não-apaixonado.
O amor não se presta a uma perspectiva linear. Não podemos emprestar a um sentimento, atemporal em sua essência, a linearidade falsa que emprestamos à temporalidade.
Amor só é depois.
Amor depois do sexo, nos resquícios de acalanto dos braços quentes que envolvem, do sal na pele e açúcar dos lábios. Amor durante o sexo? Não há amor na carne trêmula que busca no outro a satisfação pela realização do instinto, porque amor é alteridade. Reconhecer-se no outro. Sexo também é alteridade, sexo é sempre (no mínimo) dois. Mas sexo é buscar-se no outro. Finda a busca, eis o amor. Depois.
Amor depois do fim do relacionamento. Depois do fim, quando nada do que era satisfação e bem-estar resta, quando o que sobra é o resto de café frio no fundo da xícara e o gosto amargo de decepção, é que se descobre o amor. Por reconhecer-se no outro, eis que não se deseja a morte por envenenamento e o sangue do coração outrora amado escorrendo entre os dedos. Eis que se vê no outro o digno direito à realização, eis que se vê o amargor transformado em respeito e ternura. Eis então o amor. Depois.
E os amores platônicos, são amores depois? Por supuesto. Não há amor mais depois que o platônico. É amor depois de perder-se a necessidade de correspondência, é amor depois de só restar a esperança e a memória. Depois.
Mas com a infinitude do tempo e a possibilidade de ocupar qualquer de seus espaços, poderemos viver o amor depois ainda que antes. Por isso, não poderia existir outra conjugação do verbo amar que não no presente. O amor é sempre agora, em algum lugar do tempo. E é sempre depois. Não façamos do amor um sentimento expressável em um plano cartesiano. Que o tempo de amar não seja linear.
Teorizar o amor é agora. Amar, deixo pra depois.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Travessuras Diabólicas

Os teus beijos tem gosto de morango e cigarro. Os meus, café. Mas o teu cabelo tem cheiro de fruta fresca e a tua pele não absorve o odor da nicotina.Me pego lembrando do contorno da tua boca e tremo. A cada vez, eu temo. Sei do risco quando tu me abraça forte e beija minha têmpora, mas também sei que todos os meus sentimentos já são agridoces há tempos. Não sei é até que ponto devo me preocupar por saber que escondemos sob a sensualidade uma necessidade bem maior que sexo: uma ânsia por um momento de compreensão sem a formalidade de um sentimento.

Nós sempre encontramos a paixão no seu estado bruto e a confidência em seu estado pagão. O amor é, sim, dos anjos, agora te respondo. Isso nunca foi amor, mas se os anjos existem, compactuam com essa travessura diabólica.




quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

janela pra lua


hoje minha janela tem vista pra lua
hoje minha alma tem vista pra rua

só por hoje vou deixar
as pernas seguirem a lua
e a mente sair pra rua

hoje vou me inundar de rimas pobres
de cacofonia barata
de clichês e lugares comuns

só hoje eu vou desejar
que minha cama fosse nosso lugar em comum.