sábado, 2 de maio de 2015

Had to let you go

Essa é mais uma das cartas que eu escrevo e não envio. Em um tempo não tão remoto, ela chegaria ao destinatário sem que fossem precisos selos ou mesmo remessa. 
Escrevo para dizer que não passou. Que eu passei por ti, as tuas mãos passaram pelo meu corpo, o teu pensamento passou a outras mentes e nosso tempo passou. Mas o que eu sinto não passou. 
Eu lembro teus beijos o tempo todo. Lembro tua boca macia em contraste com a força dos teus braços ao meu redor. Principalmente de madrugada, quando não há ninguém e só posso contar com minha música francesa e meu café. 
Tenho trilhado um caminho e só pretendo retornar se me disseres pra ficar. Eu sei que é patético até mesmo levantar essa hipótese. Eu não posso evitar me tornar patética quando penso no que me fazes sentir. 
Olho as fotos que tiramos juntos e sinto falta da tranquilidade no meu sorriso. Sinto falta das gargalhadas, e de jogar meus braços ao redor do teu pescoço. Quando tu me disseste “até logo”, talvez eu já soubesse que “logo” é um tempo que não existe. 
Eu tenho pensado sobre muitas coisas. Percebi que não importa o quanto eu aceite baixar a guarda e me tornar vulnerável (e acredite, eu realmente estou fazendo isso) eu jamais vou me sentir tão vulnerável quanto me senti no momento em que decifraste meus olhos. 

Talvez seja melhor assim. Talvez seja melhor pra mim.

I had to let you go
To the setting sun
I had to let you go
And find a way back home


domingo, 22 de março de 2015

Pesadelos

Eu tive pesadelos a semana toda. Nenhuma vez você perguntou como eu me sentia. Eu vi cadáveres na geladeira e o que mais me assustou foram as declarações e fotos de casal.  Eu levei um tiro e doeu mais sentir algo depois de todo esse tempo.

Sou a mulher mais segura do mundo quando ando sobre meus pés, mas odeio a sensação de andar nas linhas das tuas mãos.  



quarta-feira, 11 de março de 2015

Pecado Original

A vida é cíclica. Nada poética essa palavra: cíclica. Cí-cli-ca. Burocrática e repetitiva. Também o é a vida. Sabe, tudo se repete. Tudo volta a acontecer. Você vê o relógio dar tantas voltas que te deixa tonta, se distancia de tudo que já foi, move montanhas e reinventa galáxias. E eu me vejo lidando com as mesmas coisas. Os mesmos sentimentos e as mesmas sensações.
No fundo, é o pecado original. E eu não estou falando de religião. Por favor, cara Igreja Católica. Permita-me roubar o conceito de “pecado original” para ressignificar como “atitude que te expulsa do lugar de felicidade para te lançar no padecimento eterno e irreparável”. Falo do pecado original único de cada indivíduo. Aquela dor primeira que ainda doi e jamais cicatriza.
Pra mim, falo daquele desespero secreto e rascante quando ouço teu nome por acaso. Daquela certeza que mesmo teu oposto tem o mesmo olhar que tu. Olhar manso, olhar intenso. Inofensivo, que derruba todas as barreiras. Pra me fazer reconstruí-las em material mais forte no final.

Toda dor se parece infinitamente com a dor original
Todo ciclo pode acabar com o mesmo final
E eu me recuso a crer que é normal
Todo sentimento de ternura abismal
Se desfazer em tristeza estrutural. 



terça-feira, 10 de março de 2015

Sinergia

Sinergia
Energia em sintonia
Sinto que se vai a monotonia
Sinergia
Energia sinestésica que anestesia
Sim à energia
E agora
Apenas
Sem energia



segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Sou teu fetiche


Eu sou os teus olhares de esguelha. Sou o aperto no teu peito quando ouves a letra da música e o vulcão no teu sangue quando observas meu corpo mover-se.

Sou os pensamentos que não te deixam dormir tranquilo. Sou a culpa quando beijas tua mulher. Sou mácula e sou glória. Sou a voz sussurrada e as palavras que só os teus olhos dizem.

Sou o sopro de juventude e o torpor de se permitir não pensar. Sou o remorso e o tremor. O estremecimento e o nervosismo. A avidez pelo ácido dos meus beijos e as reticências infinitas entre cada libertação.

Sou aquilo que vivia só nos teus pensamentos obscuros. Sou a sombra iluminada dos teus lábios na minha pele. Sou a realidade que grita teu nome em meio ao emaranhado dos lençóis.

Eu sou o proibido que nenhuma sanção te impediria de adorar. Eu sou cada reação química do teu cérebro que fecha as  cortinas do mundo e te cobre de prazer.

Eu sou exatamente isso. Exatamente o que teu corpo deseja e tua mente condena. Exatamente a tentação em que tu queres cair. A fuga perfeita, que silencia no dia seguinte mas corta o silêncio do agora em cada gemido.

Eu sou teu fetiche. Sou toda tua fantasia. Vem e cai. A única maneira de acabar com uma tentação é cedendo a ela. Vem e mata tua sede na minha saliva. Faz do meu corpo a sede do teu prazer.  Acende teu desejo e deixa nossos corpos ascender. 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Pela cor dos meus olhos

O castanho te trouxe prenúncios de tempestade. O verde passageiro e limítrofe, em um relâmpago, te entregou o êxtase. O mel que se derrama tem a ver com a doçura de estar feliz. 

Vês... Oblíquos olhos de cigana, que nada te sabem dissimular. 

Ninguém desvendou antes a delação dos meus olhos e isso me diz tudo que eu preciso saber sobre os teus olhos. Ninguém me deixou mais temerosa de voltar a ver no espelho as nuances que meus olhos adquirem na raiva e na dor. Eu espero, num arroubo de ousadia para quem aprendeu a nada esperar e deixar-se surpreender, que você jamais tenha acesso a essas nuances. 


terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Carta a um poeta

Se você estivesse aqui, te convidaria para um café. Naquela rede capitalista, onde nós, esquerda convicta, encontramos um espresso excelente e um refúgio magnífico. Não é contrassenso. Contrassenso é saber que a poetisa em mim ainda te acha inspirador. Contrassenso é dialogar contigo sentada frente à folha em branco.
Eu gostaria de te convidar para um café pra te perguntar, poeta, se essa solidão é crônica. Te perguntar se ela nasce com a gente, impregnada nos ossos, no sangue nos genes, ou se em algum momento que todos desconhecem, a gente a adquire, no cheiro da terra ou numa brisa que sopra vinda de algum lugar.
É que eu percebi que mesmo quando minha gargalhada nada discreta enche a sala e os ouvidos dos meus amigos, mesmo quando os sons que enchem o ambiente são gemidos e mesmo quando me aninho em braços queridos, há uma parte de nós que ninguém toca. Tomo a liberdade de dizer “nós”, poeta, por um lampejo de clarividência que me faz ver nos teus olhos o mesmo que me encara quando paro em frente ao espelho. Essa parte fica reservada para a poesia. A poesia que somos e aquela que escrevemos.
Estive lendo meu favorito, meu delicioso Gabo. Estive tomando café e me embriagando da sétima arte (a propósito, um filme excelente, deverias vê-lo). Estive me identificando com o clã solitário dos Buendía e perguntando às paredes se é genético, crônico ou agudo. Se a solidão é mal de quem nasce assim, com a poesia intrincada na pele, ou se alguns poetas não a experimentam jamais.
Pobres deles, dos que nunca experimentam. Ou pobre de nós, dos que nunca a abandonam? Pobre da solidão, creio eu. Ela escolhe umas almas muito peculiares para montar acampamento.

Encerro esse texto-carta-ensaio assim, sem final, porque também eu permaneço sem respostas.

Escreva-me.

Eu ainda escrevo para ti. Eu ainda escrevo você.


Te escrevo.